A aposta na cidade-jardim
Enquanto outras Zonas Econômicas Especiais cresciam à base de fábrica e gabarito alto, Zhuhai escolheu limitar a indústria pesada e proteger a orla — uma aposta que definiu a cidade até hoje.

Toda Zona Econômica Especial chinesa dos anos 1980 tinha o mesmo problema para resolver: como crescer rápido o bastante para justificar o investimento, sem repetir os erros de poluição e caos urbano que acompanharam a industrialização acelerada em outras partes do mundo. Zhuhai resolveu esse problema de um jeito que a distinguiu de Shenzhen, Shantou e da maioria das cidades chinesas que cresceram na mesma época.
Escolhas feitas cedo
Desde os primeiros anos como zona especial, o governo municipal de Zhuhai adotou regras de zoneamento incomuns para o padrão chinês da época: recuo obrigatório de construção a partir da linha da maré, limite de gabarito em trechos da orla, e resistência deliberada a atrair indústria pesada e poluente — o tipo de investimento que outras zonas aceitavam sem muita seletividade em troca de crescimento rápido.
A cidade também investiu, desde cedo, em arborização urbana em escala que poucas cidades chinesas da mesma geração praticaram: avenidas largas com canteiro extenso, morro urbano preservado como parque em vez de loteado, e uma política de manter área verde entre quadras residenciais em vez de maximizar a taxa de ocupação. A Estrada dos Namorados (情侣路, Lovers Road), a avenida de orla que corre por dezenas de quilômetros colada ao mar, é o símbolo físico mais visível dessa escolha: onde outra cidade litorânea chinesa dos anos 1990 provavelmente teria erguido torre atrás de torre virada para o mar, Zhuhai manteve a orla como espaço público contínuo.
O preço da escolha
Essa aposta teve custo. Nas décadas em que Shenzhen se transformava numa das maiores economias urbanas do mundo, Zhuhai crescia num ritmo visivelmente mais lento, com uma base industrial menor e menos emprego para atrair migração em massa. Por anos, a comparação com a vizinha foi inevitável e, para os padrões de crescimento que a China valorizava naquele momento, desfavorável a Zhuhai.
O que a escolha rendeu
Com o tempo, o cálculo mudou. a partir dos anos 2000, à medida que a China começou a lidar com o custo ambiental do crescimento acelerado em outras regiões, o modelo de Zhuhai passou a ser lido como vantagem, não atraso. A cidade passou a aparecer com regularidade entre as mais habitáveis do país em levantamentos nacionais, e essa reputação — mais do que qualquer parque industrial — virou parte do que Zhuhai vende hoje: qualidade de vida, ensino superior, turismo e um ambiente urbano que atrai gente que já passou por Shenzhen ou Guangzhou e busca outra coisa. A decisão de zoneamento tomada nos anos 1980 é, em grande medida, o motivo pelo qual a Zhuhai de hoje se parece com o que se parece.
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