1980: por que Zhuhai virou Zona Econômica Especial
Zhuhai foi uma das quatro primeiras cidades escolhidas pela China para experimentar economia de mercado em território controlado — e a proximidade com Macau foi decisiva para a escolha.

Em 1978, a China começou a sair de décadas de economia centralizada e isolamento em direção a um modelo que abriria partes do país ao investimento estrangeiro e ao mercado, sob a liderança de Deng Xiaoping. O instrumento escolhido foi a Zona Econômica Especial (經濟特區): um território delimitado, com regras próprias de investimento, câmbio e comércio, funcionando como laboratório controlado antes de qualquer generalização para o resto do país.
Por que quatro cidades, e por que Zhuhai
Em agosto de 1980, o governo chinês formalizou as quatro primeiras zonas: Shenzhen, Zhuhai e Shantou, em Guangdong, e Xiamen, em Fujian. As quatro tinham um traço em comum que não era coincidência: proximidade com um território chinês fora do controle direto de Pequim, com capital, comércio e diáspora prontos para investir assim que a porta se abrisse. Shenzhen fazia fronteira com Hong Kong; Zhuhai, com Macau; Xiamen olhava para Taiwan através do estreito; Shantou tinha uma diáspora chinesa numerosa no Sudeste Asiático.
No caso de Zhuhai, a fronteira terrestre com Macau — território sob administração portuguesa até 1999 — era o ativo estratégico central. Dava à cidade um canal de entrada de capital, tecnologia e know-how comercial que nenhuma cidade do interior tinha, e um motivo concreto para o governo central investir numa área até então predominantemente agrícola e pesqueira, com pouco mais de 300 mil habitantes.
Um caminho diferente do de Shenzhen
Shenzhen e Zhuhai começaram do mesmo ponto de partida político em 1980, mas seguiram trajetórias visivelmente diferentes. Shenzhen cresceu como polo manufatureiro e, décadas depois, como polo de tecnologia, absorvendo migração em massa e virando uma das maiores cidades do país. Zhuhai cresceu mais devagar e fez escolhas de planejamento urbano que a distinguiram desde cedo: recuo obrigatório de construção na orla, limite à indústria pesada, e uma aposta declarada em ser uma cidade "habitável" — o que os planejadores chineses chamariam mais tarde de 宜居城市, cidade adequada para se viver.
Essa divergência não foi acidental. A liderança municipal de Zhuhai, já nos anos 1980 e 1990, tomou decisões explícitas de zoneamento que privilegiavam qualidade ambiental e urbana em vez de crescimento industrial bruto — uma aposta que, à época, parecia deixar a cidade para trás no ritmo de crescimento que Shenzhen exibia, mas que definiu o caráter que Zhuhai tem até hoje.
O que a zona trouxe
A condição de Zona Econômica Especial deu a Zhuhai décadas de investimento em infraestrutura, isenção fiscal para capital estrangeiro e um fluxo constante de negócio ligado a Macau e, por extensão, a Hong Kong. Foi essa mesma condição que, décadas mais tarde, tornaria natural a escolha de Zhuhai — e da vizinha ilha de Hengqin — como ponto de apoio continental para a integração ainda mais profunda com Macau que o país buscaria a partir dos anos 2010.
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